As mulheres e o dinheiro

Publicado em Compras, O seu dinheiro, Orçamento Por SaldoPositivo - 07 de Março de 2011

As conquistas no mercado de trabalho movimentaram a mulher para a linha da frente no que diz respeito ao dinheiro. No entanto, o sexo feminino ainda está a aprender a lidar com as finanças e, em alguns casos, continua a preferir entregar essa tarefa aos homens. Um erro crasso, diz Susana Albuquerque, secretária-geral da Asfac – Associação de Instituições de Crédito Especializado e autora do livro “Independência Financeira para mulheres”.

As mulheres estão a tornar-se cada vez mais independentes.

Na sua obra, a especialista em finanças pessoais desmistifica os mitos femininos em relação ao dinheiro “que fazem com que muitas mulheres ainda sintam que não são tão boas gestoras do seu dinheiro quanto os homens, ou que estes fariam essa gestão melhor do que elas”.

Há algumas décadas, as mulheres normalmente não trabalhavam fora de casa, eram financeiramente dependentes dos maridos e o homem é que tratava dos assuntos relacionados com dinheiro. Com a entrada no mercado de trabalho, o papel da mulher mudou. Entretanto o sexo feminino aprendeu a mexer com o dinheiro?
Mesmo quando eram os maridos que trabalhavam fora de casa as mulheres sempre foram responsáveis pela gestão do orçamento doméstico, e isso fê-las desenvolver muitas das competências do dinheiro: como gastar equilibradamente, como poupar, como fazer um orçamento. No entanto, como em termos de evolução da espécie humana 4 ou 5 décadas é um período de tempo muito reduzido para que as mulheres se sintam tão capazes de gerir o seu dinheiro tão bem quanto os homens, que já o fazem há milhares de anos, as mulheres ainda sentem necessidade de informação e formação acrescida neste domínio.

No meu livro falo precisamente disso, dos chamados mitos femininos em relação ao dinheiro que fazem com que muitas mulheres ainda sintam que não são tão boas gestoras do seu dinheiro quanto os homens, ou que estes fariam essa gestão melhor do que elas.

Quais as principais diferenças na forma de lidar com o dinheiro entre mulheres e homens?
As mulheres são, por definição, mais relacionais e regem-se por uma lógica de cooperação, logo, é normal que gostem de tomar decisões partilhadas com os outros – amigos, marido ou namorado, família, e que, por exemplo, precisem de estabelecer uma relação de confiança com o seu gestor de conta (mais do que analisar os resultados do seu trabalho). Por outro lado, os homens regem-se, normalmente, por uma lógica de competição, são mais individualistas nas decisões que tomam em relação ao dinheiro. Estas são, genericamente, as diferenças base que se reflectem na forma como cada um dos géneros gere o dinheiro.

Quais os erros mais comuns cometidos pelas mulheres na gestão das suas finanças?
A entrega da gestão do seu dinheiro aos seus maridos ou companheiros de forma cega.

Como é que vê o aparecimento (recente) de produtos financeiros exclusivamente dedicados às mulheres?
Acho que quanto maior for a diversidade de produtos, mais ganha o mercado. No entanto, o facto de os produtos serem dirigidos a mulheres quer dizer, em primeiro lugar, que a comunicação e o marketing do produto é concebido tendo em conta as características femininas, mas isso não significa, por si só, que sejam os melhores produtos para as mulheres. Isto é, qualquer mulher deverá sempre observar um dos princípios da boa gestão financeira que é o de comparar ofertas semelhantes – ainda que não sejam produtos especificamente dirigidos a mulheres, poderão ser tão bons ou melhores.

As mulheres são conhecidas por serem mais reservadas do que o homens no que respeita aos investimentos. Porquê?
Por razões de ordem ancestral. Para a nossa evolução enquanto espécie ser bem sucedida, um dos géneros, aquele que por tradição sempre assegurou o provimento da família, gosta mais de risco, enquanto que as mulheres que cuidavam da família e da comunidade, não gostavam de assumir riscos que pudessem por em causa a sobrevivência do grupo de que cuidavam.
Do ponto de vista bio-psicológico ainda se sentem os resquícios dessas memórias ancestrais, razão pela qual as mulheres são, em regra, mais avessas ao risco do que os homens, logo gostam de fazer investimentos mais conservadores.

Esta mentalidade está a mudar?
Sim, porque as mulheres cada vez mais reconhecem a sua necessidade de serem financeiramente independentes, isto é, de assumirem as decisões todas em relação à gestão do seu dinheiro, o que pressupõe que aprendam de que forma podem e devem arriscar. No meu livro “Independência Financeira para Mulheres”, explico de forma detalhada como fazer investimentos minimizando o risco e garantindo sempre a nossa segurança financeira.

De uma forma generalista, as mulheres tendem a ser mais gastadoras do que os homens, pois custa-lhes mais resistir a um par de sapatos. Ou seja, têm uma relação mais impulsiva e emocional com o dinheiro. A que se deve este comportamento?
Ao contrário do que pensamos, mulheres e homens são igualmente consumistas. É isso que demonstram uma série de estudos feitos um pouco por todo o mundo. A única coisa que distingue mulheres e homens são os produtos em relação aos quais são impulsivos. Para os homens, esses produtos são, em geral, equipamentos electrónicos e gadgets; para as mulheres são roupas e acessórios para si e para os seus filhos.

A dependência económica da mulher em relação ao homem, com alguma iliteracia financeira à mistura, faz com que algumas mulheres percam qualidade de vida após um divórcio, por exemplo. Que devem as mulheres fazer para garantir a sua sustentabilidade financeira?
Devem valorizar sempre o seu trabalho e o seu contributo para o bem-estar da família durante o casamento e fazer a sua poupança mensal regular e consistentemente. Para além da poupança mensal da família devem ter a sua própria almofada financeira.
Nos casos em que a mulher não trabalha fora de casa, logo não tem salário, o seu contributo para a família deveria ser quantificado e valorizado todos os meses no orçamento mensal que é feito, o que não acontece na maioria dos casos levando as mulheres a desvalorizarem ou desconsiderarem o seu valor (pessoal e financeiro).

Que conselhos de poupança deixa às mulheres?
Que poupem todos os meses á cabeça, de forma regular e automatizada. Isto é: assim que o salário entra na conta deverá sair uma percentagem do mesmo ou uma quantia fixa para uma conta poupança.

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One Replies to "As mulheres e o dinheiro"

  1. armenio ladeira

    Muito bem estruturado e convincente

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